Imagens do Inconsciente

Nise da Silveira, psiquiatra brasileira, foi uma combatente contra os violentos tratamentos da psiquiatria do seu tempo. Entre 1946 e 1974 dirigiu a secção de terapia ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, percurso que representou uma profunda busca pela compreensão do processo psicótico.

Vendo-se numa realidade tão adversa, Nise procurou soluções muito além do campo da psiquiatria. Com os seus pacientes, contemplou várias dimensões de expressão humana como a arte, mitologia, religiões e literatura. As suas ideias revolucionárias, fruto de intensa pesquisa e reflexão, são ainda relevantes para os nossos tempos, sendo o livro Imagens do Inconsciente possivelmente o mais precioso testemunho que Nise escreveu.

Trailer do Filme Nise: O Coração da Loucura, lançado em 2015.

Nise destaca o encontro com a psicologia jungiana como o mais importante acontecimento nas suas buscas no campo da psique. Ao aplicar esta abordagem, Nise procurava captar o aspecto mítico que dava sentido ao processo psicótico. Em Imagens do Inconsciente descreve a abordagem jungiana como prática que “tem por meta ajudar o doente a entender os conteúdos arcaicos invasores do consciente, originários dos estratos mais profundos da psique, não como realidade concreta segundo lhe está acontecendo na situação psicótica, mas visa guiá-lo através da elaboração difícil e sofrida desse material na qualidade de linguagem simbólica.”

Foi Carl Jung o psiquiatra que deu início ao ramo da psicologia analítica, tendo sido sistematicamente citado por Nise ao longo do livro Imagens do Inconsciente. Assim, ao longo da leitura, tomei a liberdade de ir apontando as citações do psiquiatra suíço que mais apreciei. Deixo-vos então com 7 citações de Jung, cada qual oriunda de uma obra diferente, mas que têm em comum a temática do inconsciente:

"Nós vivemos entre dois mundos, ou seja, entre dois sistemas de percepção totalmente diferentes: percepção de coisas externas, por meio dos sentidos, e percepção de coisas internas, por meio das imagens do inconsciente."
JUNG, C.G., Psicologia em Transição
"O self é o princípio e arquétipo da orientação e do sentido: nisso reside sua função curativa."
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos, Reflexões
"Se a mandala simboliza o self visto num corte transversal, a árvore representaria o self visto de perfil, configurado como um processo de crescimento."
JUNG, C.G., Aion: Estudos sobre o Simbolismo de Si-mesmo
Carl Jung / Imagem: jungnet.net

"Na loucura nada se descobre de novo e desconhecido: estamos olhando os fundamentos de nosso próprio ser, a matriz dos problemas nos quais nos achamos todos engajados."
JUNG, C.G., Psicogênese das Doenças Mentais
"o sonho torna-se para esses pacientes mais real que a realidade externa"
JUNG, C.G., Prática da Psicoterapia
"A psique doente é uma psique humana e, apesar das perturbações que possa sofrer, participa inconscientemente da vida psíquica total da humanidade."
JUNG, C.G., Freud e a Psicanálise
"O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma energia."
JUNG, C.G., Estudos Alquímicos

Dream Journaling

Há aproximadamente uma década, deixei de lado os rabiscos dispersos sobre o conteúdo onírico que sonhara, decidido a começar um diário de sonhos mais elaborado. Não tinha ideia, nessa altura, do quão importante se revelaria o registo constante dos sonhos.

O que de início se revelou como uma simples descrição sequencial, foi gradualmente dando lugar a uma análise e a interpretações. Certos elementos tornaram-se recorrentes, sendo inevitável um olhar atento à simbologia e ao tom mitológico.

Registar os sonhos tornou-se assim um “ritual”. Nem sempre tenho sonhos dignos de registo e análise, e nem sempre me recordo do que sonhei, mas criei o hábito de olhar em detalhe sobretudo para aqueles que, ainda de manhã, ficam a pairar misteriosamente.

Hoje, tenho noção que o registo e a procura de significação no material sonhado é uma “conversa” com o lado inconsciente. Algo que o estudo da obra de Carl Jung me ensinou, foi que essa interação molda não apenas o nosso lado racional como também leva a misteriosas alterações nas nossas “camadas” mais profundas. Por outras palavras, o nosso inconsciente está “vivo” e também receptivo ao que o nosso lado consciente tem a “dizer”.

Sonhos são realizações de desejos ocultos e são ferramenta que busca equilíbrio pela compensação. É o meio de comunicação do inconsciente com o consciente.

Carl Jung

Daqui em diante, usarei o Blog para fazer algumas partilhas sobre as minhas descobertas. Obviamente que os “desejos ocultos” e certas simbolizações feitas através do sonho são muito pessoais e merecem permanecer no diário, mas alguns dos conteúdos são altamente criativos e servirão de mote para reflexão.

Bons sonhos…