“Tão grande era de membros que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!”
(OS LUSÍADAS, LUÍS DE CAMÕES)
Uma página que “grita” pressupõe alguém que a “escuta”. Dada a vastidão de subjectividades que se entre-cruzam, o setting arte-terapêutico/psicoterapêutico grupal é propício à emergência de imagens (e também palavras escritas) desconcertantes e perturbadoras. Se por um lado o condutor do grupo almeja que as resistências desvaneçam e que o “nevoeiro” se dissipe para abrir caminho à exploração profunda, por outro, poderá sentir temor ao deparar-se com a força do sentimento por trás da imagem intensa e cruamente investida. Trata-se de algo paradoxal, uma vez que o terapeuta dá permissão para que o grupo escolha a “forma de navegar”.
Apesar de nos chocarem, há hoje em dia incontáveis obras de arte desconcertantes, expostas por todo o mundo para serem apreciadas. A história da arte é rica em Imagens Chocantes, e o facto de as valorizarmos culturalmente é mais uma evidência de que aquilo que à partida pode causar repulsa, pode na verdade ocultar um sentido mais profundo e até passível de ser compreendido e integrado. Em “O Homem e Seus Símbolos”, um livro de concepção e organização do psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung, Aniela Jaffé aborda o simbolismo nas artes plásticas, afirmando que existe no humano uma propensão inata de criar símbolos. Ao transformar os objectos e formas criativamente, nascem símbolos aos quais é conferida uma enorme importância psicológica (Jaffé, em Jung et al., 2016). A analista suíça deixa ainda um interessante paralelismo entre o humano da antiguidade e o humano moderno, referindo o seguinte:
“Instintos reprimidos e feridos são os perigos que rondam o homem civilizado; impulsos desenfreados são os piores riscos que ameaçam o homem primitivo. Em ambos os casos, o “animal” encontra-se alienado da sua natureza verdadeira; e, para ambos, a aceitação da alma animal é a condição primordial para alcançar a totalidade e a vida plena. O homem primitivo precisa domar o animal que há dentro dele e torna-lo um companheiro útil; o homem civilizado precisa cuidar do seu eu para dele fazer um amigo.” (Jaffé, em Jung et al., 2016)
Qual será este “animal” que Jaffé sugere termos dentro de nós? Como se expressam estes “instintos reprimidos” e “impulsos desenfreados” no contexto terapêutico? Que acontece quando estes emergem em Arte-Terapia / Psicoterapia? Poderá o grito do “animal” que há dentro de nós emergir na página? O movimento artístico do Expressionismo pode dar-nos algumas pistas e pontos de reflexão. Surgido no século XX, foi transversal a vários campos artísticos para além das artes visuais, como a arquitectura, a literatura, a música, o cinema, o teatro e até a dança e a fotografia.

O Grito (Edvard Munch, 1893)
Levantando o véu a este fenómeno artístico, encontraremos um vasto grupo de seres humanos imbuídos numa busca por uma arte pessoal e pelo contacto com a intuição. Se antes imperava a observação da realidade, o movimento instaurou uma expressão da visão do próprio criador e a consequente conexão ao seu mundo interior. Não será esta procura igualmente fundamental em qualquer processo de Arte-Terapia/Psicoterapia?
Se a vivência do artista expressionista fora marcada por vivências intensas e se no seu imaginário habitavam “horrores”, como o caso do pintor norueguês Edvard Munch, também a sua tela revelou o potencial de espelhar a “monstruosidade”. Em Arte-Terapia/Psicoterapia, um paciente poderá igualmente encontrar na página o lugar ideal para “dar corpo” a um “monstro”. Ao mesmo tempo, o clima de segurança e de contenção que é mantido no grupo pelo condutor poderá ser convidativo para a expressão de sentimentos fortes por parte do indivíduo. Por outras palavras, um “monstro” que surge em sessão de grupo, mesmo que “avistado” por um só “navegante”, poderá representar uma ameaça para toda a embarcação. Se a imagem do “monstro” grita, como as sirenas que levam os navegadores à loucura na Odisseia de Homero, é importante identifica-la e categoriza-la correctamente.

Ulisses e as Sirenas (John Waterhouse, 1891)
Apoiado nas suas formulações da Arte-Terapia Grupanalítica, Gerry McNeilly confere à Imagem Chocante uma categoria tipológica, associando-a a uma possível luta narcísica na qual o elemento de “choque” estará ligado à esfera dos conflitos nas relações objectais do indivíduo (McNeilly, 1983). Gerry McNeilly salienta dois pontos fundamentais a ter em conta perante qualquer imagem chocante que observemos a emergir em sessão: Se a imagem é chocante para o próprio criador, podendo existir uma motivação consciente; e se existirá uma intenção consciente de chocar o grupo, a par de um ataque inconsciente a objectos externos.
Pegando na sugestão de McNeilly, podemos refletir que por detrás da produção de uma imagem chocante não está necessariamente apenas a relação do criador com o seu conteúdo interno, pois este poderá igualmente pretender (consciente ou inconscientemente) afirmar algo perante o grupo como um todo. À semelhança do paralelismo entre a página em branco com os silêncios, McNeilly estabelece novamente uma ligação com a terapia verbal, na qual a imagem chocante estaria associada a uma atitude monopolizadora. Se nesse caso o indivíduo usaria as palavras e as acções para chocar e impressionar os restantes elementos do grupo, em Arte-Terapia/Psicoterapia, o indivíduo estaria “munido” de uma imagem com força e intensidade igualmente capaz de despertar a atenção dos outros de variadas formas.
Na presente investigação, na qual tão recorrentemente estabelecemos um paralelismo com a navegação marítima, estabeleceremos uma analogia ao fenómeno da criação da imagem chocante em grupo com o confronto com um monstro marinho emergente das profundezas. E como bem sabemos, os monstros e as criaturas misteriosas fazem parte das aventuras e dos mitos mais antigos. Tal como estes, também os sentimentos fortes e as afirmações, pedidos ou gritos, fazem parte do processo de uma jornada difícil. Curiosamente, tal como observamos uma dualidade entre aquele que parte à aventura com aquele que a ela se opõe, temos também um “embate” entre aquele que cria uma imagem que choca, e aquele, ou aqueles, que com ela se impressionam.
Em Opposing Forces and the Attraction of Opposites in Group Analytic Groups, McNeilly reflete sobre o fenómeno de atração dos opostos, que se torna particularmente interessante de observar no contexto da presente reflexão. McNeilly afirma que este processo que ocorre nos grupos envolve energia e tensão, não só no indivíduo como no grupo como um todo (McNeilly, 1990). Invoca as teorizações de Foulkes sobre a dinâmica de grupo, nomeadamente o espelhamento, a ressonância e o processo de atração, para chegar à conclusão de que a atração pode existir tanto no que é falado como no não falado, envolvendo uma atração para um objecto de atração, ou existindo um sentimento dentro de si que atrai os outros. Tal fenómeno tanto poderá ser aprazível como, por outro lado, perturbador.

Medusa (Gian Lorenzo Bernini, 1630)
Partindo destas linhas de pensamento, e aplicando-as à Imagem Chocante que surge em sessão, poderemos associar à existência de uma atração, na medida em que o conteúdo da imagem produzida só se tornou gritante porque algo “no olhar” de quem a contempla assim o decidiu. Por outras palavras, aquilo que habita a página tornar-se-à um “monstro” quando o “aventureiro” que se depara com ele experiencia uma atração de cariz perturbador. Podemos ilustrar este acontecimento com uma analogia mitológica que passo a tecer. Imaginemos a temível criatura da Grécia antiga, Medusa, cujos cabelos eram serpentes e com um olhar que teria o poder de tornar em pedra aqueles que a olhassem diretamente. Arrisco-me então a adicionar um twist a este mito, para ajudar a nossa reflexão. Imaginemos que, aqueles que ao invés do monstro virem uma mulher bela, não sentirão o temor, nem serão petrificados. Assim é a Imagem Chocante na sessão: o que para uns poderá ser belo e consequentemente agradável, para outros poderá ser aterrorizador, e em ambas situações ocorreu uma atração.
Para melhor entender este tipo particular de imagem, colocaremos em foco a situação em que a Imagem choca o grupo todo. Este é um fenómeno particularmente curioso, uma vez que introduz uma oposição entre o grupo como um todo e a criação individual. Se o condutor do grupo se sentir igualmente chocado, estaremos perante uma curiosa oposição entre humanos e imagem, entre real e fantasia, ou por outras palavras, entre exploradores e o próprio produto do imaginário a que se propuseram explorar. Porém, é precisamente nesta “linha do meio” entre oposições que se encontra uma preciosa chave para o entendimento do próprio grupo. Os “sustos” também constroem e definem a “viagem”. Olhemos para as palavras de Carl Jung, escritas por carta a D. P.W. Martin em 1937, e sobre as quais McNeilly reflete:
“Os pares de opostos têm uma tendência natural para se encontrarem na linha do meio, mas a linha do meio não é nunca um compromisso pensado através do intelecto e forçado pelas partes em oposição. É antes o resultado do conflito que o indivíduo tem de sofrer. Tais conflitos nunca são resolvidos através de truques ou uma invenção inteligente, mas sim pela perseverança. De facto, temos de aquecer estes conflitos até alcançarem o máximo de potência e deste modo derretem em conjunto (unem-se). É uma espécie de procedimento de alquimia e não uma escolha ou decisão. O sofrimento é um constituinte indispensável. Toda a solução real é apenas alcançada através do sofrimento intenso. O sofrimento indica até que grau somos intoleráveis para nós mesmos. “Concorda com o teu inimigo” por dentro e por fora, esse é o problema! Tal concordância deve ser uma violação a ti próprio, muito menos do que o inimigo faria. Admito que não é fácil encontrar a fórmula certa, no entanto, se a encontrares tornaste ‘uno’, e penso que isto é o significado da vida humana”. (JUNG. C.G., Letters 1973)
Enquanto que McNeylly destaca o conceito de “linha do meio” estabelecido por Jung, no âmbito da tipologia da imagem, interessa-nos particularmente a componente do sofrimento. Afinal de contas, a imagem chocante é-o porque evoca tais sentimentos intensos em alguém. Não deixa de ser altamente relevante que, na interação entre este tipo de imagem e aqueles que a olham, estejam precisamente certas nuances de dor. Arriscarei afirmar que, para a compreensão deste “monstrengo” que atemoriza o grupo, será necessário escutar o seu “grito”, ou seja, estar disponível para receber o seu discurso, mesmo que odioso e ameaçador, como o do gigante Adamastor em Os Lusíadas. Observar essa imagem, escutar este grito, implicará algum grau de desconforto, ou até mesmo de sofrimento intenso. Mas, segundo Carl Jung, as perspectivas de tal feito são extremamente vantajosas, estando entre elas a própria dissolução dos conflitos. Cintando o emblemático mitólogo Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces:
“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêm-no como um demónio e, assim, protegem-se da sua aproximação.” (Campbell, 2013)
Paralelamente, os elementos do grupo indisponíveis para encarar a monstruosidade emergente na página, poderão perder a oportunidade de desvendar conteúdos altamente pertinentes para favorecer o seu próprio crescimento pessoal. Ao não elaborarem sobre uma imagem chocante, poderá perder-se a oportunidade de conhecer esse outro lado do “demónio”. Campbell escreve ainda:
“Quem são e onde se encontram os ogres? São reflexos dos enigmas não resolvidos da sua própria humanidade.” (Campbell, 2013)
Ocorrem-me “monstruosidades” do mundo da ficção como o emblemático vilão Gollum, da saga criada por J. R. R. Tolkien. Esta criatura à primeira vista horrenda e disforme, com pele pálida e gestos grosseiros, fora outrora Sméagol, um ser pacífico e com uma personalidade bastante diferente. Curiosamente, ambas as personalidades convivem na mente desta personagem, alternando ao longo da sua aventura. Logo, conhecendo apenas a sua versão grotesca irá limitar a perspectiva em relação a Gollum. Somente suportando o discurso incoerente, hostil e barulhento de Gollum será depois possível “aceder” a Sméagol, e conviver com aspectos mais recalcados da personalidade, onde ainda repousava uma réstia de benevolência. Numa linguagem que talvez só se faça entender entre fãs desta saga, diria que se olharmos apenas o lado monstruoso da criatura, impedirá de conhecer o hobbit de outrora (Tolkien, 2002).

Gollum (Frédéric Bennett, 2014)
Foulkes acreditava que “o retrato vivo do grupo é melhor pintado uniformemente em termos de conflito, que é evidente na forma manifestada e latente em cada situação de grupo.” Assim, em contexto Arte-Terapêutico, um ogre, gigante, medusa, ou sirena que atemorizam os vários elementos podem ser altamente úteis ao condutor, na medida em que o mesmo poderá procurar explorar e manejar o conflito pelas associações que lhes são atribuídas pelo grupo e pela comunicação metadramática que tal envolve.
Estamos gradualmente a chegar à conclusão de que, apesar da sua monstruosidade, as imagens chocantes têm o poder de “agitar as águas”, ou seja, de manter o grupo vivo e num fluxo dinâmico. Por sua vez, esta só poderá ser desvendada adoptando uma atitude de tentar compreender e localizar o seu significado individual, dentro do contexto grupal, como o recomenda McNeilly. Perante uma imagem deste tipo, Gerry recomenda que esta seja levada a sério, de forma a alcançar o seu significado subjacente. Além da contenção na abordagem do Arte-Terapeuta/Psicoterapeuta, devem estar especialmente presentes a tolerância e a compreensão. Nesta perspectiva, o papel do condutor torna-se altamente relevante, uma vez que poderão surgir momentos em que este será o único indivíduo na sala na posse de ferramentas para encarar a “violência” do conteúdo latente na imagem. Se para alguns teóricos o condutor do grupo pode ser visto como um maestro que guia a orquestra, para a “odisseia” que é a presente reflexão, pode ser alternativamente o comandante de uma embarcação que, perante o monstrengo colossal que emerge do oceano, oferece uma saudação e revela-se aberto para dialogar.
Referências:
CAMÕES, L. Os Lusíadas. Círculo de Leitores, 1980
CAMPBELL, J. O Herói de Mil Faces. Editoria Pensamento, 2013
JUNG ET AL., C. O Homem e os Seus Símbolos. Harper Collins, 2016
MCNEILLY, G. Directive and non-directive approaches in art-therapy. 1983
MCNEILLY, G. Opposing Forces and the Attraction of Opposites in Group Analytic Groups. Paper, 1990
Tolkien, J. O Hobbit. Publicações Europa-América, 2003


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