A Importância da Imagem na Psicoterapia

A palavra imagem deriva do latim imago, um termo que surgiu para designar uma representação visual de uma pessoa ou de um objecto. O termo correspondente do grego antigo é eidos, conceito desenvolvido por Platão, sendo precisamente a raiz etimológica de idea ou eidea. O filósofo do período clássico da Grécia antiga considerou que a ideia de uma coisa, a sua imagem, seria uma projecção da própria mente. Por outras palavras, Platão propôs o idealismo, sendo a imagem um fenómeno resultante da projecção da psique humana.  

De mãos dadas com o termo imagem, e igualmente derivado de imago, temos hoje uma palavra que habita o vocabulário de qualquer um: imaginação. Tal como imagem, é uma palavra de um sentido igualmente complexo. Com o sufixo “ação” obviamente a sugerir um acontecimento, imaginação será melhor compreendida através do verbo imaginar, do latim imaginari, o acto de formar uma imagem mental de algo.  Assim, podemos hoje definir a dimensão do imaginário como aquela à qual pertencem os objectos imaginados, ou seja, um “mundo” no qual habitam as projecções mentais: as imagens. 

Embora imagem, imaginação e imaginário possam parecer conceitos exclusivamente individuais e limitados ao indivíduo que imagina, imaginar poderá tornar-se uma empolgante “Odisseia” quando experimentada em relação. Cada indivíduo experiencia a vida com um determinado grau de subjectividade que, em contacto com outro indivíduo, munido de uma subjectividade diferente, se cruzam no campo da inter-subjectividade.

É precisamente nesta zona de interação entre diferentes subjectividades que os imaginários se encontram, sendo estes fenómenos relacionais da mais crucial importância na prática terapêutica e psicoterapêutica. 

Tal como na vida quotidiana, na psicoterapia tradicional comunicamos através da significação dos conceitos por via da oralidade. Por outras palavras, transpomos as representações mentais em sons, para que o outro as escute e as traduza novamente em imagens: as suas próprias representações mentais. Se além da oralidade se abrirem portas a outras formas de gerar símbolos, poderemos aceder a um outro tipo de comunicação. Assim, não estaremos limitados somente à significação verbal, podendo experienciar uma dimensão poética, altamente sensorial. Desta forma, confere-se um especial enfoque à produção de símbolos, ou seja, à forma como cada um poderá manifestar criativamente o que habita em si. Expandem-se as possibilidades de comunicação, e paralelamente expande-se também o potencial de desenvolvimento humano e a complexidade das relações. Afinal de contas, a Arte é-nos inata, sendo a base da expressão humana e, parafraseando a artista Phylicia Rashad, antes de falar já cantávamos, antes de escrever pintávamos, e assim que aprendemos a estar em pé, dançamos. 

Uma das características que distingue a Arte-Terapia/Psicoterapia de tantas outras práticas de psicoterapia é precisamente o especial enfoque colocado na dimensão da imagem e na sua representação.

Enquanto que Psicólogos Clínicos, Psicanalistas ou Grupanalistas se especializam no “manejo do verbo”, o Arte-Terapeuta / Psicoterapeuta propõe-se a navegar com os seus pacientes para além da expressão verbal, para além da própria linguagem. Esta ousada Odisseia não seria possível sem a Arte, uma vez que é precisamente pela expressão artística que é possível ao ser humano expressar a sua existência nas formas mais profundas e significativas. Por permitir projectar o mundo interior, os métodos de Arte-Terapia / Psicoterapia tornam possível que as imagens mentais ganhem “corpo”, emergindo diante do paciente, do terapeuta e do grupo, com recurso aos mais variados tipos de expressão (chamados mediadores no contexto do modelo Polimórfico) e de técnicas.

A imagem poder-se-à tornar tão rica quanto a própria riqueza no imaginário dos seus observadores e, em última análise, o produto criativo realizado em sessão, o objecto de arte, corresponderá a uma transdução do imaginário do paciente. 

Excerto de Odisseia do Imaginário
Francisco Ladeira, 2023

Arte-Psicoterapia

Há imagens que pedem tempo, escuta e acompanhamento para poderem ser habitadas. A consulta torna possível essa “odisseia do imaginário”.


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