“No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz. E houve luz.”
(BÍBLIA SAGRADA, GÉNESIS, 1:1)
Tal como sugere a Bíblia, o começo é branco. Perante todas as possíveis e infinitas ordens que deus poderia dar, a entidade “toda-poderosa” escolhe como a sua primeira ordem que se faça luz. Eva Heller, socióloga, psicóloga e professora de comunicação e psicologia das cores, revela-nos em “A Psicologia das Cores – Como actuam as cores sobre os sentimentos e a razão” que é consensual que o simbolismo da cor branca está inevitavelmente associado a referências à luz, cor igualmente ligada à perfeição. Será um mero acaso tal associação? Que dinâmica psicológica se esconde por detrás de uma cor que muitos de nós diriam “neutra”?
Em italiano, branco é bianco, em francês é blanc, e em alemão blank. Curiosamente, em grego é leukós, associável ao verbo alemão leutchen para “brilhar” e “iluminar”. Em “Psicologia da Cor”, Heller descreve ainda o branco como uma cor de começos. São exemplos o ovo branco, a hóstia, a pomba branca e o leite – o primeiro alimento que o ser humano recebe. Mas os exemplos vão além da religião Cristã, pois podemos encontrar na história da Criação do hinduísmo, o mito do mundo que nasce de um mar de leite. Já no xadrez, dita a regra que quem tem as peças brancas começa o jogo.
Com esta reflexão inicial, pretendo vincar que, ainda antes de se envolver no momento criativo, o paciente de Arte-Terapia/Psicoterapia já se encontra – de forma mais ou menos consciente – numa dimensão simbólica, inerente à nossa condição humana. Mesmo não existindo qualquer elemento gráfico com que se possa relacionar, o indivíduo que se vê subitamente frente a uma folha de papel branca (ou vazia) entrará numa relação com a página e com tudo aquilo que ela lhe evoca. Obviamente, os paralelismos anteriormente referidos não se aplicam a todos os indivíduos, uma vez que a forma de nos relacionarmos com os elementos visuais e com as cores é altamente subjectiva. Não deixa no entanto de se tratar de uma reflexão da mais elevada importância especialmente porque, numa dinâmica grupal, surgirá um variado leque de potenciais associações perante a folha vazia.
Num grupo de Arte-Psicoterapia ou de Arte-Terapia, a criação de um objecto de arte é uma parte essencial do processo. Quando o resultado da criação corresponde a uma imagem, a exploração da mesma torna-se também essencial, pondo “à prova” o aparelho psíquico como processador de símbolos. Surge um conteúdo manifesto que implica uma mensagem subjectiva, de um teor que se poderá estender do factual ao vasto espectro emocional. De acordo com Ruy de Carvalho, o objecto de arte irá condensar, veicular e catalisar vários aspectos da comunicação que, pela relação terapêutica/psicoterapêutica, serão amplificados ainda mais.
Por não imporem ao grupo um tópico à partida, os modelos de Arte-Psicoterapia Grupal e de Arte-Terapia Grupanalítica conferem uma valiosa liberdade ao “criativo em cada um”. No entanto, ao permitir que cada elemento do grupo decida o que pretende representar, o terapeuta está igualmente a permitir que qualquer uma das páginas seja deixada em branco pelos seus autores. Emerge então uma pertinente questão relativamente a este fenómeno, que não é incomum encontrar em grupos na sua fase inicial: Poderá a página em branco ser considerada uma imagem? Será o aparente “nada”, passível de ser também ele explorado?

Branco no Branco (Malevich, 1918)
Antes de refletirmos sobre a questão de um ponto de vista grupanalítico, vejamos de que forma a página em branco se revela, iconicamente, na história da arte. Existem alguns exemplos intrigantes e controversos, tanto para o público como para os críticos, como o caso da pintura abstrata “Branco no Branco” de Malevich, pintada em 1918. O branco é precisamente uma cor de eleição para o minimalismo, e apesar do vazio em tela, a obra do artista russo não deixou os críticos indiferentes. Os construtivistas, movimento rival ao do suprematismo, ironizaram sobre a obra, descrevendo-a como “uma tela absolutamente pura, com muito boa camada primária. Alguma coisa podia ser feita nela”. Se alguma “coisa” poderia ser feita nela, porque razão os críticos construtivistas “responderam” à obra? Fica claro que, mesmo não apresentando qualquer elemento concreto, Malevich e os seus brancos sobrespostos transmitiram uma mensagem. Associando esta ocorrência à teorização de Ruy de Carvalho, poderemos afirmar que, apesar da tela ter sido deixada em branco, ocorreu comunicação a um nível estético. O “objecto de arte” de Malevich detém uma qualidade subjectiva que foi, e ainda é, capaz de produzir um impacto de atração e de aversão para os construtivistas na altura. Por outras palavras, há configurações pessoais nos receptores ou visualizadores, que são activadas, tornando possível a vivência de algo a partir de uma tela vazia. A mera existência do objecto artístico já representa por si só um apelo à dimensão simbólica.

IKB 3 (Yves Klein, 1960)
Outro exemplo icónico é a exploração monocromática de Yves Klein, artista conhecido pela sua incansável e intensa demanda por um azul puro. Apesar de não se tratar de uma representação da cor branca, Klein introduz um jogo de espaço vazio. Com cada quadro da chamada “Época Azul”, procurava irradiar uma intensidade destinada a sensibilizar o espectador. Quer nos debrucemos nos brancos de Malevich ou nos azuis de Klein, falamos de obras que ganharam relevância no mundo das artes devido ao seu contexto. São obras que, apesar de não conterem nenhum elemento imagético, “falam” dentro de um campo inter-subjectico, no qual o “nada” do artista que é expresso pelo objecto, desperta uma emoção do público. Regressemos à questão lançada inicialmente: será o “nada” passível de ser explorado? E surge agora a minha resposta: sim, e os artistas fazem-no constantemente.
Debrucemo-nos sobre a mesma questão, agora apoiados na teorização de Gerry McNeilly, formador da SPAT e conceptualizador do modelo de Arte-Terapia Grupanalítica. No seu artigo Group Analytic Art Groups, Gerry McNeilly enfoca uma tipologia particular de imagens, que refere ter observado emergir nos próprios grupos que conduziu. O primeiro tipo de imagem que identifica, é precisamente o da Página em Branco. Levados pela ingenuidade, poderíamos ser tentados a excluir este tipo de criação da própria classificação como imagem. No entanto, devemos ter em conta o contexto terapêutico, no qual o olhar do terapeuta também contempla os processos psicodinâmicos. Desta forma, a folha branca torna-se uma “imagem poderosa, face ao fundo da actividade total do grupo”, n Gerry as plavras de Gerry McNeilly.
Em Psicologia da Cor, Heller refere que “onde está presente o branco, não há nada”. Aponta que em muitas línguas “branco” tem um equivalente a “vazio” e deixa exemplos curiosos, como a expressão “voz branca”, que para os franceses designa uma voz insonora, ou “passar a noite em branco”, que para os portugueses equivale a uma insónia. Tanto para portugueses como para italianos, o famoso “cheque em branco” é um cheque que embora assinado, é ambíguo, não detendo uma quantidade específica. Heller aponta ainda o branco como a cor do desconhecido, exemplificando com os mapas antigos, cujos territórios deixados em branco representavam o inexplorado.
Tal exemplo permite-nos estabelecer um interessante paralelismo com a criação deixada em branco na sessão, uma vez que, se olhadas em conjunto, as imagens poderão ser encaradas como um único “mapa”, cujas “partes brancas” ainda estão por explorar em futuras sessões. O mapa português do início do século XVI apresentado na imagem pretende ilustrar o paralelismo, tendo sido uma obra criada através da junção de várias folhas de pergaminho montadas sobre um tecido. Se isoladas, algumas das 6 folhas evidenciam um vasto espaço “em branco”.
No mesmo sentido, em sessão de Arte-Psicoterapia, a página em branco poderá ser encarada como uma parte entusiasmante da “odisseia” do grupo. Ao invés de seguir uma visão simplista ao se encarar imediatamente o vazio como a ausência e a correspondente ausência de sentimentos, o terapeuta intrépido, atento e instruído saberá que se trata de, metaforicamente, um nevoeiro por levantar.

Cartografia Portuguesa, 1502 (Museu Esteense de Modena)
Sabiamente, Gerry equipara as páginas deixadas em branco aos silêncios inicias de um indivíduo em terapia verbal. Para o autor irlandês, ambas as situações significam um “limiar entre o mundo e o setting terapêutico”, estando latente uma mensagem poderosa. As dinâmicas manifestadas pela folha em branco apontadas por Gerry são especificamente a ansiedade e a apreensão. Vejamos a primeira, definida em “Dicionário de Psicologia” da seguinte forma:
“Emoção gerada pela antecipação de um perigo vago, de difícil previsão e controlo. Transforma-se em medo face a um perigo bem identificado. Faz-se acompanhar por modificações fisiológicas e hormonais características dos estados de activação elevada e, muitas vezes, está associada ao comportamento de conservação-retirada ou a condutas de evitamento.” (Doron e Parot, 2001)
Curiosamente, é-nos apresentada uma definição que inclui o perigo, o medo, a falta de previsão e de controlo, reforçando ainda mais a minha analogia à exploração marítima. Neste caso, servindo-me uma vez mais da linguagem metafórica, o elemento do grupo que se recusara a criar pode ser encarado como um “explorador” que, embora se tenha alistado para a “navegação”, está reticente em relação à ao destino da aventura. Talvez tenha até antecipando um “naufrágio” ou um encontro com qualquer “monstro marinho”, emergente das profundezas do oceano. Pode no entanto experienciar um debate interno, de forças opositoras. Por um lado, poderá querer “mergulhar nas águas”, ou seja, preencher a totalidade da folha, mas ao mesmo tempo sentir um grande medo de o fazer.
Segundo Gerry, este medo diz respeito à expectativa, fantasiada ou real, de que deve preencher aquele espaço de papel com cores e formas. Tal expectativa poderá ainda estar conectada ao condutor do grupo, pelo qual o elemento do grupo nutre admiração. Perante a sua passividade, tal capitão da embarcação que não dita qualquer ordem, poderá levar a um elemento do grupo insatisfeito pela não gratificação. Nestes casos, Gerry afirma que a folha branca poderá significar “a paralisia perante a zanga e a frustração”.
Tal como o exemplo monocromático azul que dei anteriormente a propósito da obra de Yves Klein, também poderá surgir em sessão uma folha totalmente pintada com uma só cor. Pela ausência da forma, Gerry enquadra este tipo de imagem igualmente na Página em Branco, referindo que o que se vê “é uma camada colorida por cima do sentimento inicial de vazio”. Por outro lado, nascida da ambivalência associada, poderá estar ”uma raiva não expressada”. Nestes casos, Gerry afirma que a folha vazia seria representativa do conflito entre a contenção dos sentimentos que constituem essa raiva e um grande sentimento de vazio que “aguarda ser preenchido”.
Aludindo novamente à cartografia, estaríamos perante um território selvagem pronto a ser explorado, mas que, por não possuir qualquer bússola ou rumo a seguir, o explorador decidira permanecer na embarcação. Este “novo mundo” que o marinheiro poderia encarar como virgem e como um berço de uma nova civilização, é antes encarado como ameaçador, já supostamente povoado por aquilo que considera seu inimigo. Para este navegador, bastaria uma simples pegada na areia da praia para despertar o temor, tal como o paciente que, perante a folha branca, encara a mais pequena marca como algo passível de desencadear a libertação da sua raiva.
Partilho da ideia de Gerry, para quem a Página em Branco representa muito mais do que um simples vazio. Desta forma, ao invés de se confrontar com um momento frustrante, o Arte-Psicoterapeuta poderá encarar a criação como uma peça de comunicação tão válida quanto as restantes no grupo. Devo ainda realçar a perspectiva de Ruy de Carvalho, que elaborou a Tipologia Morfodinâmica da Imagem inspirada nas conceptualizações de Gerry McNeilly. Baseado na evidência fenomenológica das criações em Arte-Psicoterapia, Ruy de Carvalho estabelece uma ligação com a sua significação dinâmica, tendo em conta os padrões pictóricos. Relativamente à Página em Branco, descreve a existência de potenciais “angústias primitivas” que bloqueiam a concretização, ou poderá ser uma obra que espelha aspectos inaceitáveis do self.
O que para Ruy de Carvalho representa uma página que deverá ser investida para que se possa tornar num ecrã no qual o paciente se espelha, para mim, nesta Odisseia do Imaginário, será um oceano envolto em nevoeiro, à espera de um rumo criativo que revele um novo mundo.
Excerto de Odisseia do Imaginário
Francisco Ladeira, 2023

Deixe um comentário