pedaços de papel

a arte de ler pedaços de papel

Ler as cartas é uma das variadas práticas que o humano criou para receber mensagens “de outra dimensão”. Devido a este lado misterioso ao qual também podemos chamar poético, esta arte, que talvez possamos categorizar como performativa, está inegavelmente carregada de um tom divinatório.

Na cartomante, seguimos maioritariamente a tradição francesa de ler o Tarot, mas estamos cientes que esta é apenas uma das tradições, e o Tarot é apenas um ramo da grande árvore das artes contemplativas, que germinou na antiguidade. Ler a linguagem visual é uma necessidade inata no homem. Na antiga Grécia faziam-no, os povos escandinavos faziam-no e na Europa Medieval, com a propagação das técnicas de impressão em xilogravura, propagou-se o famoso jogo do Tarot.

Realçamos que, no que toca à leitura do que quer que seja, o mais importante não é aquilo que usamos como alfabeto, mas sim a consistência do nosso método e ao que com ele conseguimos aceder.

 Artefactos divinatórios de várias culturas, expostos no Museu Pitt Rivers em Oxford, Inglaterra.
Fotografia: Ethan Doyle White

Seja com cartas, búzios, ossos ou até pássaros no céu, esta prática não se trata da obtenção de um vislumbre definitivo do futuro, mas sim da possibilidade de participar num jogo que nos dá acesso à poesia do acaso. Com esta, podemos formular previsões. Tal é completamente legítimo, os canais de meteorologia fazem-nas todos os dias e tu também o fazes, mesmo que de forma inconsciente.

Mais do que as previsões, interessa-nos o potencial e inspiração que a cartomancia oferece à nossa vida quotidiana. Se o permitirmos, as leituras tornam-se uma ajuda para o nosso percurso, um guia no desenvolvimento mais consciente da nossa narrativa. Se o tarot não ajudasse, porque raio leríamos as cartas?

Mais do que prever o futuro, gostamos de “prever” o presente.

Poderás já ter-te questionado sobre quem é a cartomante, quem está por detrás da marca e o que esconde aquela misteriosa máscara do logotipo (convido-te a espreitar a nossa secção: sobre nós). Ou então simplesmente perguntas: mas o que raio leva esta gente a ler estranhas imagens em pequenos pedaços de papel? São tudo questões que nos fariam agora entrar em grandes raciocínios, porém, a arte de ler as cartas trata sobretudo de ver, e não de saber em teoria. Sendo assim, vamos directos àquilo que nos levou a criar a cartomante: ler as cartas. Formularei a minha pergunta, que provavelmente é também a tua:

“Quem somos? Quem é a Cartomante?

Três cartas caíram na mesa.

A MORTE / A ESTRELA / O SOL

LEITURA: Aquele que passou a vida a retirar as suas camadas até ao osso, agora escava para encontrar a sua raiz. Ela, de cabelos dourados, decide entregar tudo o que tem ao mundo, sem saber exactamente em que direção corre a água e muito menos o seu destino. Juntos, abraçam-se. Estão na mesma página, querem estar pintados no mesmo pedaço de papel. Se espreitares sobre o muro, terás um belo vislumbre e poderás fazer parte da nossa história.

As cartas falam-nos claramente dos dois elementos da cartomante: Francisco, o Tarot Reader e Catarina, a Artista. Juntos, formam uma parceria entre um morto e um vivo. Entre um céptico e um místico. Entro um feio e um belo. Entre o masculino e o feminino. A solo, moviam-se curvados, e o solo que um escavou, o outro regou. Agora erguem-se juntos, bem cimentados como um muro. Uma dupla, dois elementos despidos do supérfluo, que se amam desde a raiz até ao céu.

Olhar atento. Cartas no bolso.